sexta-feira, 21 de agosto de 2026

SEM SAÍDA - PAT ANDRADE

Sem saída 


o dia seguinte está repleto

de silêncio e desconforto

as lágrimas molham

os cômodos da casa


um sem-jeito no corpo

uma dor que não passa

um olho que não se fecha

e a mente inquieta


na agonia da segunda-feira 

até as plantas querem fugir do vaso

as raízes frágeis procuram lugar 

no piso vermelho do pátio


mas já não há saída

não há paz do lado de dentro

e nem liberdade do lado de fora


Pat Andrade

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

nenhuma mudança

 Escrevo. Não é uma nova frase clichê do amor, não digo que tudo sobre o amor seja clichê. Algo deveria mudar!

Escrevo novamente. Não quero registrar lamentações e enganos, o cotidiano parece sim mais colorido, seria hipocrisia continuar na mesma tecla de uma letra que permanece travada. Algo deveria mudar e deveria sair de algum lugar ali dentro do pensamento.

Escrevo para outra pessoa e quero receber uma carta de um fantasma.

Não vale o esforço esperar por longos anos, não vale sequer um vintém. Esperar a mudança é uma tolice que leva por caminhos tão fragmentados, lembrar que a realidade se distorce, lembrar de comprar um novo celular, lembrar de beber água, lembrar de detalhes sobre uma criança, lembrar da idosa, lembrar de sobreviver.

As mensagens continuam numa tela invisível e os olhos precisam de lentes novas, gastar dinheiro com qualquer jogo, gastar dinheiro com uma roupa nova. Nenhuma mudança nas cobranças do cartão de crédito, juros e enormes redemoinhos de boletos, viver é trabalhar para sobreviver, viver é mendigar tempo para ouvir o filho ler.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Nova fase

entre o sono e a desilusão
vive uma flor com cheiro de casa
não quero fazer uma rima
de casa e pobreza torpe

sinto sua falta 
os braços e as pernas 
esquentando 
a minha dor
sinto tanto 
por sua indiferença 

não é possível esquecer 
eu quero amarrar
o meu coração 
no teu coração 

a dor de barriga 
o medo de perder 
essa tristeza febril
é por causa do amor 

sinto falta do teu cheiro 
dessas mãos que protegiam
toda a minha carência 
numa única tragada

eu sinto a sua falta 
não era amor
era o desejo
sei que era
uma paixão 
violenta.

domingo, 26 de julho de 2026

A mensagem no verso

 Eu vou fazer um poema
porque não sei desenhar.

O protagonista gosta de cantar
é como um galo na aurora do dia.

Já as serpentes andam em bando
umas se mordem por diversão

Existe brilho e existe sombra
ali no lodo existe um poço 
não tem mais fundo.

A lama atrai e gera enganos
são como raízes dentro da terra
quem olha de fora acha bonito 
é um pântano grande 
e gera novas aventuras.

— Não cave a lama! Não cave a lama!

Existe risco e existe sombra
não é tão fácil sair do lodo
não é tão fácil sair da lama.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Matemática avançada

que quer construir
não DIVIDE
quem quer dividir
não multiplica
nem constrói

quem quer destruir
não SOMA
quem quer somar
não DESTRÓI

domingo, 5 de julho de 2026

Objeto do círculo

 Todas as dimensões 

embrulhadas

 numa 

caixa redonda

e nenhum bilhete 


a carta do amor

se perdeu

no correio 

e nunca chegou 

ao destinatário 


ela desejava ser

a paixão 

daquele menino

como desejou ser

a sua própria paixão 


aquela carta estava rasgada 

num beco sem saída 

pedaços do papel 

voando para dentro 

do esgoto esquecido 


outro rapaz 

mandava um coração 

numa rede social 

querendo chamar atenção 

sem fazer esforço 


se o coração fosse real

a sensação seria 

como as borboletas 

e não como os morcegos

no estômago adoecido.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Ode a sobrevivência

 Luto para continuar respirando 
não quero viver nessa eterna fase
o jogo precisa de um ponto final 

Não vejo sentido nos preços 
a tabela deveria quebrar
todo dinheiro é uma troca 

Sinto saudades daquela menina 
não consigo esquecer o sentimento 
quero mudar o canal da tv

Trabalhar é como o caos
toda hora parece o inferno 
a rotina mata o cérebro 

O casamento entre homem e mulher 
todos os tempos dessa frase 
criam o ato do desamor

A morte destrói a ilusão 
não casei com a mulher dos sonhos 
não vou casar com um homem vulgar.