esse sangue que jorra
no caderno
e na sua mão?
Loucuras alucinantes não podem ser dosadas ou medicadas. A lucidez e a insanidade brincam com a verdade. Sabedoria é saber manobrar os silêncios nessa vida.
Pensei tantas vezes em dizer para aquele ser (des)humano que imaginei várias cenas dele indo dessa para pior, – minha irmã fala que não devo amaldiçoar com palavras –, sei que as palavras ressoam, justamente por isso eu não escrevi. Mas, eu quero amaldiçoar somente esse indivíduo com a visão da realidade.
Eu quero que ele carregue TODO o fardo de suas mentiras e seja um veneno em sua garganta as suas próprias palavras. Imagino como o ato de amaldiçoar pode trazer alívio quando você já está tão cansada das injustiças cotidianas. Mulheres geralmente são as mais cobradas, porém, ninguém vêm enxugar as nossas lágrimas e ninguém observa os esforços sobre-humanos das mulheres nessa sociedade.
Ser mulher é sangrar todo mês, claro que existem aquelas que não sangram e continuam sendo mulheres, mas, o feminino é o Útero. Sem o útero como pode ser outra coisa? Queria perguntar para o primeiro homem que se sentiu uma mulher no corpo errado sobre o que ele sentia da ausência do Útero.
Na verdade, não quero perguntar, não parece importante pensar nisso hoje, eu quero votar numa mulher honesta e forte, que seja presidente do Brasil. Acredito na força da mulher, preciso acreditar. Ninguém vai acreditar por mim, ninguém vai embalar as minhas dores.
O meu pai morreu quando eu tinha 9 anos, eu era o sonho dele que talvez não fosse o sonho da minha mãe, eu queria ser o sonho da minha mãe, ser um sonho de um homem morto é doloroso. O vazio não é possível de mensurar.
Ter um filho sem ter desejo de gestar, ter um filho para jogar no mundo é uma loucura-normal que sempre me revira as entranhas. Eu queria nunca ter parido, eu queria nunca ter visto o meu filho nascer, eu queria decidir sobre o meu corpo sem homens me falando que a maternidade é uma benção divina, eu não renego a maternidade, só odeio o processo.
Eu odeio ser mãe, eu amo o meu filho todos os dias e todas as noites, eu faço ele acordar e faço ele dormir sozinha, eu alimentei aquele pedaço de gente com leite materno por mais de 4 anos, eu amo meu filho mas não preciso fingir que sou uma mãe perfeita, a perfeição não me contemplou nem quando eu estava crescendo no Útero da minha mãe.
Eu volto ao início e digo que sou mãe e pai, o doador de espermatozóides não é um pai, o abusador não é um pai, o estuprador não é um pai, eu sou um pai e sou uma mãe também nessa época de misoginia e FEMINICÍDIO.
entre as quimeras dançantes
numa esvoaçante certeza
mesclando palavras
comendo a razão
zombando
da ilusão.
é claro
como o dia ao amanhecer
que não se pode prever
as mares e a chuva
só se pode crer
nessas horas
vazias
do ser.
começamos chorando
saindo de um útero
para o mundo
infinito
dos
vivos.
é uma loucura
nascer para envelhecer
surgir na margem
só pra morrer
e renascer
e depois
morrer
outra
vez.
tremor que reverberou
agonia numa manhã de sol
somos peixes fora d'água
amo aquela foto da Fazendinha
pintura capturada por um artista
e o silêncio que envolve a imagem
escrever com um desejo
suavizar a dor no peito
acalmar aquele verso
é preciso falar da água
ou das pequenas cordas
nesse barco que não zarpou?
a solidão das madrugadas
não pode ser roubada
por novos fios sem nós
aprendi a tecer o destino
nessa teia de linhas douradas
sem queimar as pontas
Era sobre a arte de respirar.
Pensamento que gera outro pensamento,
os sons e a canção da realidade
soprando novos sons.
Gosto dessa estrutura e do ritmo,
não gosto de por tantos pontos ou vírgulas
nesse texto que parece fluir além da realidade.
Talvez, eu seja a própria vertigem ali nos versos
e isso seja parte importante do ato de pensar,
escrevo sobre a loucura entre as lacunas.
Nesse pequeno lapso do tempo-ilusão
eu não almejo ter certezas concretas,
quero respirar e continuar lúcida.
Pensava nas mãos e na tinta, no desenho
e nas pequenas gotas que caem no papel,
não sei mexer com aquela figura da linguagem.
Era apenas uma sensação no meio do céu,
ou era uma fantasia que surgiu nos olhos
e transbordou nesse instante.
pingos da verdade
gotículas da inverdade
anzóis mágicos na água
o cheiro da ferrugem
convite das ondas
o beijo da morte.
revolução
outra solução
uma gota de razão
nenhum vislumbre
nessa água turva
gotas do esquecer
enlouquecer.
aquela foto
teu corpo nu
formas sobrepostas
o cru da aurora
nas gotas do fenecer
agora vai escurecer
novas gotas do ser.
voltei ao alvorecer
era quase o entardecer
não quero crescer
ser uma gota
entre
os respingos
do amanhecer.
imagino jardins
várias flores
o perfume
que exala
um cheiro
fantástico
do outro lado
num outro mundo
novos horizontes
várias flores
que nunca murcham
perfumando a vida
o cheiro com todas
as notas de flores
bilhares de pétalas
e multiplas cores
no jardim Divino
desse outro lado.