quinta-feira, 7 de maio de 2026

dissociação da madrugada

 a cabeça flutua
números na retina
escrevo no vento 

os tercetos
da madrugada 
em instantes 

consigo prever
cada pequena vibração 
detesto essa crise

é só outra dissociação 
um lapso novo no verso
e pensamentos terríveis 

terça-feira, 5 de maio de 2026

O mundo invertido

 Lucy odiava tantas coisas.
Wilson casou com Felipe.
Laura amava as sutilezas.
Gervásio tinha um sonho.

Lucas pensava em fugir.
Gertrudes viajou.
Ronaldo ganhou na loteria.
Xica mascava tabaco na plantação.

Anitta não queria casar aos 14 anos.
Ismo saiu de casa com a sua dor.
Sinara esquecia suas senhas.
Aroldo teve um infarto.

Fenícia era mãe de pet.
Júlio tinha desejo suicida.
Luciana não amava José.
Virgílio caiu de um penhasco.

O mundo nunca faz sentido.



sábado, 25 de abril de 2026

Ela partiu antes


Ela correu dos braços d'Ele,
Ela andou chorando e cantando,
Ela faleceu em plena queda.

O Senhor das Trevas aplaudiu,
O adeus engatado na garganta,
O calor em meio ao frio.

A capa vermelha lhe cobriu,
A felicidade era ilusão.
A sua fútil ilusão.

sábado, 18 de abril de 2026

Amor-tecer numa Fantasia

 Esse tecer que se tornou fuga
outra mentira entre os nós
Várias linhas cortadas

Outra pequena ilusão
nenhuma falsa paixão
Só aquele amor-tecer

Talvez 
uma nova 
Obsessão

A fantasia 
ali num sonho
sobre um breve amor.


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Sobre a fuga de Si

 Lucy correu. 

Ela correu por tantas horas e a chuva também correu com ela, era um correr frenético entre ruas escuras, poças de lama e praças desconhecidas.

A cada respiração ofegante suas pernas tremiam e já parecia ser impossível chegar ao centro de todas as frustrações que levavam-na para tão longe, correr e correr mais, num desespero asfixiante.

TOC TOC - alguém batendo na porta.

Toc Toc Toc Toc Toc...


Lucy na janela observa o vazio. 

O bater na madeira aumenta do lado de fora da casa,  ela continua olhando fixamente para um ponto no outro lado do quintal, a porta range um pouco ao ser aberta, ninguém na entrada, apenas um envelope amarelado no tapete.

Ela continua correndo em disparada o mais longe possível, sem direção, apenas numa louca corrida sem ponto final.


Lucy correu em seus pensamentos como uma maratonista eficiente.


(...)

Escrito em 10 de abril de 2017.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O mundo corre

 Aquela jovem tem talento, real, visível.

Na minha época o mundo já corria como corre agora em 2026? Ser jovem é sentir a vida num prisma totalmente diferente do adulto que observa as mudanças de cada estação.

Eu sempre sonhei com a literatura, eu sempre desejei publicar muitos livros e sempre me fixei na escrita como a salvação e a única beleza da minha geração, ler era minha maior alegria, sentir as páginas dos meus livros preferidos quando voltava pra casa.

O mundo que corre numa velocidade terrível.

Essa observação que transcorre no pensamento e se perde em memórias, não é uma simples falácia. Eu sonho com a poesia e sonho com as palavras como sonho com um mundo melhor. Talvez a vida preste porque existe a poética e a certeza de saborear um verso antes de fechar os olhos pela última vez.

O mundo corre e tudo parece correr junto com ele.

domingo, 29 de março de 2026

É sobre Suicide Solution

 Aquela senhora cujo nome é Rosa me indicou algo peculiar, e era a realidade crua, o título, a certeza, o escritor fica procrastinando para encontrar uma saída, e outra pessoa trás a solução com maestria.

— Escreva o nome grande na capa: "SUICÍDIO". Faça sem medo do que podem pensar ou falar, publique assim e seja incisiva que vai falar sobre a ideação suicida.

Atônita, literalmente, em choque por uns minutos fixei os meus olhos nos olhos daquele mulher sábia.

O projeto Lágrimas em versos é sobre ideação suicida na infância e na adolescência, sobre dissociar e desejar uma vida nova ou simplesmente falecer sem precisar suportar todas as estações da jornada humana. Era um desejo que aquela criança teve para permanecer caminhando nessa terra sem desistir de sua própria existência por completo, várias vezes cheguei a conclusão que era melhor desistir, ser uma fracassada e sumir, isolar as alucinações num quarto pequeno e aceitar a normalidade dos dias de exaustão e barulho ensurdecedor.

Ser apenas uma ameba esquisita entre as quatro paredes de uma casa museu com livros e estantes de madeira, ser uma bactéria, talvez um ácaro no mofo das paredes verdes desbotadas, ser parte das rachaduras nas vigas que seguram a estrutura de uma consciência entre os colapsos.

A resistência e a revolução, a invenção dos homens e a possibilidade de transformar morte em poema, poesia não precisa fazer sentido, mas, na singularidade do verso é exigido um sentir, essa diferença cria um eco.

Escrever é resistência? A suicide solution era a desistência? Qual a verdade e qual a mentira por trás dessas perguntas? Escrever é um suspiro.

Viver e escrever, respirar e escrever, continuar viva enquanto o sangue jorra dos corpos de mulheres nessas ruas. A tristeza e a dor, a ausência de suavidade nos dias de terror.