terça-feira, 28 de outubro de 2025

A lembrança da praia

 Nenhum vestígio de humanos, 

só pegadas na areia 

e o vento cantando, 

folhas farfalhantes, 

o cheiro do rio, 

a leveza de ver o céu, 

nuvens 

e pássaros brancos 

em bando 

voando pra algum lugar 

no infinito da Natureza.


As certezas

e as incertezas,

misturadas ao sopro

da vida que pulsa

aqui no coração.


Somos saudade

e a necessidade de afeto,

somos pequenos peixes

nadando para sobreviver

ao caos dessa Existência

que só nos joga na lama.


Eu quero voltar aqueles dias

de rio e chuva embaixo da ponte

olhando as ondas e ouvindo

o barulho da água.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Lacunas entre o Abismo e a sanidade

As reticências do que nunca escrever

Retroceder e apagar as cinzas

Olhar além desses galhos

Cravar minhocas

No solo infértil


Uma escada

Rumo a lugar-nenhum

Doces frutas esmagadas

Entre o chão e as pegadas

Passos e passos e passos e passos


Vi um sabiá voando ao redor da morte

Os pássaros gostam de dançar

Pertinho do perigo invisível 

Quero ser as asas dele

E me prender nos fios


Cair eletrocutada

A morte rápida e intensa

Asinhas queimadas pela energia

O espírito dele voando ao redor das flores

Amortecer dessas dúvidas-raízes passageiras 


Eu-sabiá-cantante que teima em viver

Alucinante aventura exagerada 

O drama dessas claras horas

Malfadadas e reticentes

Essa loucura fosca


O vento e as nuvens 

sonhos de voar pelo céu

Em uma alegoria da imaginação

Eu-sabiá-encantado que nunca morre

Sempre voando por entre as dimensões


(...)

domingo, 19 de outubro de 2025

Jogar as cinzas no rio

 Sobre mor.rer em novembro

Tenho pensado nos dias e na hora certa de partir, a insônia me disse que é melhor m0rrer no mês de novembro. 

Tentei brigar com ela, chorei por vários anos nessas horas da madrugada. 

E passei alguns segundos observando o passado. 
E fui olhar a criança bebê que poderia viver mais um ano. 

Intimamente odeio essa criança e odeio a adulta, odeio todas as fases da vida e odeio também as facetas da m0rte.

A m0rte abraça essa incessante vontade de odiar tudo e todos, é cansativo odiar cada resquício de si mesmo. 

Logo a exaustão te preenche e o sono vem.

Chegar nessa idade é em parte milagre e dor. 

Quando criança caí entre troncos e espinhos, meu corpo todo ficou cheio de grandes espinhos de tucumã e não senti dor, só a agonia de ver aquele pequeno corpo todo cravado de grandes espinhos. 

O desespero trás a dor, ela vem com a velocidade de um trem bala descarrilhado e cai como uma grande rocha no corpo humano. Esmaga tudo. Destroça sentimentos e transforma a nossa carne em massa ensanguentada e suja.

É difícil parar de odiar partes abandonadas da criança interna, é difícil segurar um bebê com seu rosto entre as mãos. É difícil esquecer e mais difícil lembrar. 

Não existe desejo maior do que a inexistência e o esquecimento seguro da fuga. A amnésia dos anos obscuros pela imagem ilusória de uma alegria infantil. O bucólico nascimento da inocência. 

A falta de sentido em cada verso sobre a m0rte.

Esse ano pensei em mat4r a adulta e queimar seu c0rpo, jogar as cinzas no rio Araguari e nunca mais ver nada sobre aquela sombra. 

Esse fantasma de gerações que fazem da rejeição um estandarte do amadurecer. 

Crescer dói. Viver dói. Morrer dói.

A rejeição é só um amontoado de sentenças e feridas que não cicatrizam com paliativos, a rejeição e o abandono criam raízes e crescem como a urtiga e os espinhos soltam veneno em conta gotas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Destino Onírico

 O berço de todas as falácias

beijos que eu deveria ter pousado

nos lábios dessa loucura intensa,

perdida, esqueci de mim 

e deitei numa cama errada.


Nem boca, nem ouvido, nem voz.

Versos que levam falhas e medos

numa jornada fantástica

dentro de um espelho,

quarto sem janelas, sem portas.


Olhamos para o abismo, eu quero pular.

Olho pra você antes de mergulhar,

não vejo nada além dessa água turva,

não vejo nada além do fundo desse rio,

você é uma lembrança do desejo.


O destino me puxou para o extremo,

afundei sozinha e você ficou a deriva,

as nossas mãos nunca estiveram

segurando as cordas do destino,

ilusão e segredos, a mentira onírica.

sábado, 4 de outubro de 2025

Precipícios

No plural e com eloquência

A minha consciência

Organiza as evidências


Os dias são bordados

E as linhas tinham vários nós

Pintei respingos da chuva


As horas tem voado

E minha memória se esvaindo

Coleciona as agulhas esquecidas


Engoli o choro para fingir sorrisos

Abraçando essas dores indelicadas

Desviando dos meus precipícios


Existe um vão no peito

O remédio é o desejo 

Impresso nos olhos


Querer se amortecer

Dentro de um precipício 

A leve pluma do eu adormecida.