domingo, 15 de março de 2026

Aquilo que não escrevi

 Pensei tantas vezes em dizer para aquele ser (des)humano que imaginei várias cenas dele indo dessa para pior, – minha irmã fala que não devo amaldiçoar com palavras –, sei que as palavras ressoam, justamente por isso eu não escrevi. Mas, eu quero amaldiçoar somente esse indivíduo com a visão da realidade.

Eu quero que ele carregue TODO o fardo de suas mentiras e seja um veneno em sua garganta as suas próprias palavras. Imagino como o ato de amaldiçoar pode trazer alívio quando você já está tão cansada das injustiças cotidianas. Mulheres geralmente são as mais cobradas, porém, ninguém vêm enxugar as nossas lágrimas e ninguém observa os esforços sobre-humanos das mulheres nessa sociedade.

Ser mulher é sangrar todo mês, claro que existem aquelas que não sangram e continuam sendo mulheres, mas, o feminino é o Útero. Sem o útero como pode ser outra coisa? Queria perguntar para o primeiro homem que se sentiu uma mulher no corpo errado sobre o que ele sentia da ausência do Útero.

Na verdade, não quero perguntar, não parece importante pensar nisso hoje, eu quero votar numa mulher honesta e forte, que seja presidente do Brasil. Acredito na força da mulher, preciso acreditar. Ninguém vai acreditar por mim, ninguém vai embalar as minhas dores.

O meu pai morreu quando eu tinha 9 anos, eu era o sonho dele que talvez não fosse o sonho da minha mãe, eu queria ser o sonho da minha mãe, ser um sonho de um homem morto é doloroso. O vazio não é possível de mensurar.

Ter um filho sem ter desejo de gestar, ter um filho para jogar no mundo é uma loucura-normal que sempre me revira as entranhas. Eu queria nunca ter parido, eu queria nunca ter visto o meu filho nascer, eu queria decidir sobre o meu corpo sem homens me falando que a maternidade é uma benção divina, eu não renego a maternidade, só odeio o processo.

Eu odeio ser mãe, eu amo o meu filho todos os dias e todas as noites, eu faço ele acordar e faço ele dormir sozinha, eu alimentei aquele pedaço de gente com leite materno por mais de 4 anos, eu amo meu filho mas não preciso fingir que sou uma mãe perfeita, a perfeição não me contemplou nem quando eu estava crescendo no Útero da minha mãe.

Eu volto ao início e digo que sou mãe e pai, o doador de espermatozóides não é um pai, o abusador não é um pai, o estuprador não é um pai, eu sou um pai e sou uma mãe também nessa época de misoginia e FEMINICÍDIO.



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