Ele encontrou a prisão
Milhares de mortos em Covas abertas
Na TV a chacina dessa favela
Corpos no meio da rua
Crianças correndo
As crianças continuam correndo
Correndo sem saber do futuro
Somos todos crianças
Correndo para longe da realidade
Criando memórias congeladas
Nesse freezer chamado de fantasia
Somos todos tolos buscando um lar
Eu quero tanto respirar
Não consigo respirar
Apenas vejo as mudanças
Quero pular dessa fantasia fajuta
Estou correndo no meio dos corpos
Uma bala marcou meu futuro
No passado acendi a pólvora
Sangue escuro no chão
Essa dor sem razão
Era uma vez...
Mortos e mortos e mortos
Estirados numa vala
Zé ninguém sem eira nem beira
Somos crianças correndo das nossas feridas
Pequenas crianças correndo e morrendo
Somos crianças num circo de horrores
E o palhaço quer comer a inocência
Era uma vez...
Mortos na guerra dos ricos
A pobreza estampada nas ruas
E carros de luxo no alto dos morros
Eu quero livros e livros de poesias
Uma dose de gengibirra e notas de 100
Eu quero olhar ao redor enquanto a roda gira
Olha essas crianças correndo e correndo e correndo.
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Não se acanhe.